De saída do MinC, Gil aponta Juca Ferreira como sucessor

Alegando dificuldades para conciliar o cargo de ministro da Cultura com a carreira artística, Gilberto Gil anunciou, na noite desta quarta-feira (30), que passará o ministério para as mãos do secretário-executivo, Juca Ferreira. “Tomei essa decisão por causa do aumento da carga de trabalho como artista. Minha retomada ao trabalho como compositor e o fato de ter gravado um disco recentemente culminaram na decisão pela minha saída”, afirmou o cantor e compositor baiano.

Na entrevista coletiva em que informou sua demissão, Gil estava acompanhado pela esposa, Flora Gil. O cantor contou que foi a terceira vez em que pediu ao o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para sair do governo e se dedicar exclusivamente à carreira artística. Bem-humorado, brincou que tinha conseguido marcar um gol em Lula. “Eu disse que ele estava ganhando de 2 a 0. Agora fiz um gol nele.”

Em dez dias, Lula deve decidir quem será o sucessor definitivo de Gil. A idéia de Lula é oficializar a escolha do interino Juca Ferreira em 9 de agosto, depois que retornar de sua viagem à China — o presidente participará da abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, marcada para um dia antes. Segundo Gil, a tendência é que Ferreira o substitua, conforme sinalizações de Lula na reunião realizada nesta quarta-feira no Palácio do Planalto.

No entanto, a escolha do novo ministro da Cultura está cercada por uma série de indicações. Interlocutores que acompanham as conversas afirmam que várias sugestões já foram encaminhadas ao presidente da República. Na relação de nomes sugeridos a Lula estariam desde o do próprio Ferreira, além do ministro do TCU (Tribunal de Contas da União) e integrante da ABL (Academia Brasileira de Letras), Marcos Vilaça, e da filósofa Marilena Chauí.

No que depender de Gil, o nome mais indicado para sucedê-lo é mesmo o de Juca Ferreira. Ligado ao Partido Verde (PV) e até então secretário-executivo do ministério, Ferreira é amigo pessoal do ministro-cantor. Na ausência de Gil, era Ferreira quem o representava nas reuniões ministeriais. Seu nome chegou a ser envolvido em especulações sobre eventuais desentendimentos com o ex-ministro. Mas interlocutores de Gil negaram que os dois amigos tenham tido atritos.

1%, a meta
Gil disse que deixa o cargo satisfeito — mas reclamou de não ter conseguido verbas maiores para a pasta. ''As dificuldades todas com as contas governamentais, o superávit e essas coisas todas conhecidas de todo mundo fizeram com que não atingíssemos a meta de 1% (do orçamento da União) desejado por nós, trabalhado por nós e recomendado pela Unesco'', disse Gil, ao ser questionado sobre quais eram suas conquistas e frustrações à frente do ministério.

Na opinião dele, alguns programas da pasta devem deslanchar nos próximos anos. É o caso do Plano Nacional de Cultura e o Sistema Nacional de Cultura. ''A minha sensação sobre o ministério é a melhor possível'', afirmou, acrescentando que se afasta com ''ar de saudade''. Gil disse que pediu demissão para poder se dedicar mais à carreira de cantor e à família.

Segundo ele, nos últimos dois anos, sua agenda de shows e compromissos se intensificou, o que dificultou a conciliação com as atividades de ministro. ''Aquela dose inicial, que eu previ trabalhar de 80% do tempo para o ministério e 20% para a atividade artística, foi se desequilibrando um pouco'', justificou. Neste ano, Gil precisou das férias de 30 dias, mais 40 dias de licença, para divulgar seu novo disco. “Quando retornei da licença, no dia 27, liguei para o presidente e pedi para termos essa conversa.”

Gil disse que não se abalou com as críticas que sofreu por estar negligenciando o Ministério da Cultura para privilegiar a carreira artística. Segundo ele, ser artista ajudou a difundir a pasta. “Não me sinto responsabilizado por uma atitude negativa em relação a isso. Conciliar as duas coisas teve vantagens no Brasil, pela projeção do Ministério da Cultura no exterior. Houve sinergia entre o trabalho do artista e do ministro. Foi uma coisa positiva — e não um estorvo.”

Fonte: Vermelho
Publicado em 30/07/2008