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Para enfrentar a crise, melhor saída é aumentar salários, diz especialista

Para enfrentar a crise internacional a melhor saída é aumentar salários e fazer a lição de casa, diz o especialista, técnico do Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos), José Álvaro Cardoso. Em Campo Grande, onde fez palestra às entidades ligadas à CUT (Central Única dos Trabalhadores) como a Fecomércio (Federação do Comércio de Mato Grosso do Sul) diz que o poder de compra do brasileiro é a arma poderosa na guerra contra a recessão que atinge países ricos.

Um dia antes do Brasil anunciar o histórico empréstimo ao FMI (Fundo Monetário Internacional), o que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva considerou uma ‘vitória’, o técnico do Dieese falou com exclusividade ao Midiamax.

Leia a entrevista abaixo
:

Até que ponto a crise internacional pode causar prejuízos aos empregadores e trabalhadores brasileiros?

José Álvaro Cardoso – É uma crise grave que essa geração de sindicalistas nunca viu. É possível que seja pior que a de 1929 (*). Mas, ela tem uma novidade. Pela primeira vez o Estado brasileiro não quebra. O governo brasileiro é parte da solução injetando crédito na economia, ajudando empresas sem liquidez.

Com recursos públicos...

José Álvaro Cardoso – O governo tem aparatos do BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], CEF [Caixa Econômica Federal], Banco do Brasil. Um arsenal que a maioria dos países ricos não dispõe. O BNDES tem mais recursos que o Banco Mundial. O Brasil enfrenta com certa dignidade a crise sem ficar insolvente. A exportação sobre o PIB (Produto Interno Bruto) foi de apenas 14% em 2008.

Com o consumo interno o País se garante é isso que o senhor quer dizer?

José Álvaro Cardoso - Sim. A economia brasileira teve crescimento nos últimos anos e isso se deu com base no mercado interno. Vinte milhões de brasileiros passaram de pobre para classe média nos últimos anos, segundo a FGV (Fundação Getúlio Vargas). Um outro aspecto é que a dívida pública do Brasil está sob controle. Antes, com a crise, a primeira coisa que explodia era a dívida. Hoje, a dívida corresponde a 35% do PIB e está facilmente controlada. A dívida pública foi desdolarizada, ou seja, não aumenta conforme a moeda nacional desvaloriza. O sistema bancário brasileiro está saudável, não entrou no processo de especulação, não há envolvimento com o setor imobiliário dos Estados Unidos que é o olho do furacão. Não existe economia sem crédito.

Se o presidente fosse o Fernando Henrique Cardoso, qual seria o cenário?

José Álvaro Cardoso – Não há como comparar e há toda uma política que eu prefiro não falar.

Mas, o atual governo tem mantido o controle...

José Álvaro Cardoso – Esse governo tem o controle da dívida externa. Ela não é problema. Hoje, temos mais reservas que dívidas internas que estão em US$ 70 bilhões. Temos US$ 200 bilhões de reserva.

Há um cenário de muita dificuldade desenhado tanto por empresários como por prefeituras e governo do Estado por conta da crise. Não há uma predisposição em discutir reajuste salarial porque consideram o momento de dificuldade. Como fica isso?

José Álvaro Cardoso – Bom...o aumento do salário mínimo faz parte de um acordo entre o governo e as centrais sindicais. Conforme o crescimento do PIB aumenta o salário. Esse acordo foi firmado em 2006 e começou a valer em 2007 e vai até 2010. O salário mínimo é corrigido conforme inflação e o crescimento de dois anos anteriores.

Uma forma de melhorar a renda do brasileiro já que a maioria é assalariado...

José Álvaro Cardoso – Um mecanismo importante para distribuir a renda. Beneficia quem recebe e também quem ganha um pouco a mais que o mínimo porque o aumento salarial dele leva em consideração o salário mínimo.

Mas como isso reflete nas negociações salariais?

José Álvaro Cardoso – A principal mensagem para todos é que o grande trunfo do Brasil para enfrentar a crise com dignidade é retomar o crescimento até 2010 garantindo desenvolvimento. Não é momento de arrochar salário e impor perdas ao mercado de consumo. O Brasil teve um crescimento nos últimos cinco anos graças ao mercado interno. O momento é de preservar o poder de compra. Isso que vai nos garantir num mundo de recessão preservarmos nossa galinha dos ovos de ouro.

Mas, se empregadores e a máquina estatal alegam não ter condições para dar reajustes o que as entidades sindicais devem fazer?

José Álvaro Cardoso – Primeiro, os trabalhadores usarem dados concretos. Temos uma previsão de crescimento esse ano de 0,5%. Uma previsão ridícula. Crescemos 10% no ano passado. Se na recessão crescermos de 0,5% a 1% já é bom. Paramos de crescer nos últimos seis meses realmente, mas em março já retomamos o crescimento com 100 mil empregos talvez. Tem que lembrar que de 2006 até 2008 as empresas faturaram, tiveram um faturamento que foi fantástico. Tem que tocar o barco para frente. Não está escrito nas estrelas que vamos crescer 0,5%. Não podemos matar salários porque dependemos dos salários. Não podemos cair nessa conversa de que as empresas estão quebrando.

Mas, e essa propagação de que o sistema público está em alerta porque teve queda de receita?

José Álvaro Cardoso – A queda da receita ou desaceleração aconteceu realmente. Uma forma de combater isso é assegurar o crescimento do salário. Dezembro e janeiro foram os meses piores. O momento é de manter o mercado interno, de união, injetando liquidez, aumentando salários.

Para fazer circular a moeda, as políticas emergências do governo federal acabam por vir em boa hora neste raciocínio...

José Álvaro Cardoso – As políticas sociais, de seguridade social, seguro desemprego. A Bolsa Família atende hoje 44 milhões de pessoas, 12 milhões de famílias e a Seguridade Social 80 milhões de pessoas.

Fonte: Midiamax News
Publicado em 07/04/2009

 



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