"Ser escritor é uma maneira de entender o mundo", diz Saramago

Aos 85 anos, que completou dia 16/11, o escritor português, Prêmio Nobel de Literatura e comunista declarado, José Saramago descobriu outra vida sua. Ele tinha esquecido, mas sua mulher, Pilar del Río, a encontrou em um monte de malas que ele havia guardado, como uma recordação trancada, em sua casa de Lisboa. Até agora. No próximo dia 23, na Fundação César Manrique, em Lanzarote, se poderá ver o conteúdo dessa vida desconhecida do autor de "O Homem Duplicado". E hoje, no auditório do Centro Cultural Conde Duque, em Madri, ele receberá uma homenagem da qual participará depois da convalescença de uma gripe que pegou na Argentina e que se manifestou nos últimos dias em Madri.

Saramago voltou da Argentina no último sábado. O que viu ali, em homenagem aos desaparecidos, lhe causou "uma imensa emoção". Mais de um quilômetro de nomes de desaparecidos esculpidos em pedra. "Não há nada mais. Sobriedade da pedra. Essa cor escura."

Ele chorou em silêncio nesse parque. "Não vale a pena levar flores, simplesmente olhe. Cada uma dessas pedras e cada nome escrito nelas é algo que se perdeu para ser evocado. Junto ao mar. Com uma sobriedade intensa. Ali onde está esse Parque da Memória foi descoberto o corpo de um menino de 14 anos que tinha sido empalado. Agora haverá ali uma escultura que vai representá-lo; quando a maré sobe, a figura desaparece. E depois volta, como uma ressurreição."

Ainda afetado por essa visão, Saramago enfrenta uma semana na qual ele mesmo vai assistir ao encontro com quem foi. Aos 85 anos, o espera outro Saramago. "E é curioso que esse homem da minha juventude venha quando completo 85 anos", explica. Uma idade "à qual se chega com sorte". "Às vezes as vidas longas significam solidão", acrescenta. Mas no seu caso, "com saúde suficiente para estar fazendo coisas", essa idade chega com um romance a caminho ("A Viagem do Elefante") e com uma atividade que não pára.

Essa vida desconhecida surpreendeu Saramago "porque revela que nesses tempos em que sempre pensei que não tinha feito nada escrevi como um verdadeiro louco". A Fundação César Manrique mostra, sob a direção de Fernando Gómez Aguilera, "um grande número de papéis, contos, um romance não terminado. Descobriram uma vida minha que estava soterrada e da qual eu não me lembrava".

A novela recuperada é "Terra do Pecado"; Saramago a deixou inconclusa, "e deixá-la inacabada era uma forma de autocrítica; pensei que não valia a pena e a deixei ali, guardada. Foi uma espécie de ato de humildade. Pensei: não posso continuar escrevendo livros se eu mesmo sei que não vale a pena fazê-los. Mas continuei escrevendo, sim, continuei. O que eles encontraram é uma coisa assombrosa; não sei quando escrevi tudo isso; eu pensava que depois de 'Terra do Pecado' eu tivesse parado, e a verdade é que continuei e continuei. Agora se vê que o passado que tenho não é o passado que pensei ter tido".

Eram textos de um rapaz de 19 anos que vinha de uma família analfabeta. Saramago não vê neles "tanta qualidade", mas sim a força que nesse momento já o fazia dizer com toda tranqüilidade: "Quero ser um escritor". Uma convicção que acabou por se transformar numa espécie de compromisso: "Estava aqui para escrever, essa era a minha vocação. Vi isso tão claro que escrevia, e aí está essa novela incompleta".

Ele não a leu, não leu nenhum desses papéis. "Pilar e Fernando os mostraram a mim, mas deixo para vê-los como verá qualquer um, na fundação", comenta. Pilar os encontrou, ela diz, "em caixas que estiveram viajando por várias mudanças, desde seu primeiro casamento. Quando terminou seu segundo casamento ficaram em um sótão. E no terceiro, que é o nosso caso, vieram para Lanzarote, onde moramos desde 1993. Mas eram caixas que nunca tinham sido examinadas".

- Saramago, não teve curiosidade para saber o que havia dentro?
- Não.
- Por quê?
- Se não tive curiosidade, como vou saber por que não tinha curiosidade?

Saramago não espera encontrar "maravilhas" ali. Diz que são "divertimentos de um rapaz de 18 ou 19 anos, sem estudos acadêmicos, sem universidade. Exceto as leituras das bibliotecas, eu não sabia nada mais". Mas havia desde então, ele diz, "um fio vermelho" que se manteve em toda a sua obra. "Esse fio vermelho seria para mim um sentido de responsabilidade em relação à escritura", ele diz. "Escrevendo melhor ou pior, eu sabia qual era a minha tarefa. Sem nenhuma reserva, era um escritor."

Escritor, o que é isso? "Uma maneira de entender o mundo, uma forma de assistir a um universo que então começava a se manifestar com uma série de mudanças que exigiam de mim coerência de pensamento e de ação. E aí eu estive, unindo essas convicções com minha experiência, aprendendo com os equívocos."

Biografia 
José de Sousa Saramago é um dos mais importantes escritores de língua portuguesa, foi galardoado com o Nobel da Literatura em 1998. Também ganhou o Prêmio Camões, o mais importante prêmio literário da língua portuguesa. Nasceu na província do Ribatejo, Portugal, no dia 16 de novembro, embora o registro oficial apresente o dia 18 como o do seu nascimento.
Saramago, conhecido pelo seu ateísmo e iberismo, é membro do Partido Comunista Português e foi diretor do Diário de Notícias. Casado com a espanhola Pilar del Río, Saramago vive atualmente em Lanzarote, nas Ilhas Canárias.

OBRA
Saramago é conhecido por utilizar frases e períodos compridos, usando a pontuação de uma maneira não convencional (aparentemente incorreta aos olhos da maioria). Os diálogos das personagens são inseridos nos próprios parágrafos que os antecedem, de forma que não existem travessões nos seus livros: este tipo de marcação das falas propicia uma forte sensação de fluxo de consciência, a ponto do leitor chegar a confundir-se se um certo diálogo foi real ou apenas um pensamento. Muitas das suas "sentenças" ocupam mais de uma página, usando vírgulas onde a maioria dos escritores usaria pontos finais. Da mesma forma, muitos dos seus parágrafos ocupariam capítulos inteiros de outros autores. Apesar disso, o seu estilo não torna a leitura mais difícil, os seus leitores habituam-se facilmente ao seu ritmo próprio.

Estas características tornam o estilo de Saramago único na literatura contemporânea: é considerado por muitos críticos um mestre no tratamento da língua portuguesa. Em 2003, o crítico norte-americano Harold Bloom, em seu livro Genius: A Mosaic of One Hundred Exemplary Creative Minds ("Génio: um mosaico de cem mentes criativas exemplares"), considerou José Saramago "o mais talentoso romancista vivo no mundo actual" (tradução livre de the most gifted novelist alive in the world today), referindo-se a ele como "o Mestre". Declarou ainda que Saramago é "um dos últimos titãs de um género literário que se está desvanecendo".

Principais obras publicadas

Poesia
Os poemas possíveis, 1966
Provavelmente alegria, 1970
O ano de 1993, 1975
Crônicas
Deste mundo e do outro, 1971
A bagagem do viajante, 1973
As opiniões que o DL teve, 1974
Os apontamentos, 1976
Viagens
Viagem a Portugal, 1981
Peças de Teatro
A noite, 1979
Que farei com este livro?, 1980
A segunda vida de Francisco de Assis, 1987
In Nomine Dei, 1993
Don Giovanni ou O dissoluto absolvido, 2005
Contos
Objecto quase, 1978
Poética dos cinco sentidos - O ouvido, 1979
O conto da ilha desconhecida, 1997
Romances
Terra do pecado, 1947
Manual de pintura e caligrafia, 1977
Levantado do chão, 1980
Memorial do convento, 1982
O ano da morte de Ricardo Reis, 1984
A jangada de pedra, 1986
História do cerco de Lisboa, 1989
O Evangelho segundo Jesus Cristo, 1991
Ensaio sobre a cegueira, 1995 (Prémio Nobel da literatura 1998)
A bagagem do viajante, 1996
Cadernos de Lanzarote, 1997
Todos os nomes, 1997
A caverna, 2001
O homem duplicado, 2002
Ensaio sobre a lucidez, 2004
As intermitências da morte, 2005
As pequenas memórias, 2006

Fonte: Vermelho
Publicado em 19/11/2007