ENTREVISTA: Amorim defende debate democrático sobre Comunicação

O experiente e conceituado jornalista Paulo Henrique Amorim é o primeiro nome de uma série de entrevistas que o Boletim Confecom traz a partir desta sexta-feira, dia 20, com profissionais de mídia e integrantes da sociedade civil, sociedade civil empresarial e poder público, os segmentos representados na 1ª Conferência Nacional de Comunicação (1ª Confecom). Com passagem por importantes órgãos de imprensa do Brasil, Paulo Henrique Amorim tem acompanhado com atenção os preparativos para a 1ª Confecom. O jornalista, que proferiu palestra na Conferência Estadual de Comunicação da Bahia, no dia 14 de novembro, e também esteve na Conferência Municipal de Betim e em uma conferência livre em São Paulo, defende a realização da 1ª Confecom como um instrumento democrático.

Para o senhor, qual é a importância da 1ª Confecom e das etapas preparatórias, as Conferências Estaduais de Comunicação (Conecons)?
A 1ª Confecom já se revelou um instrumento poderoso para que o Brasil desperte para a discussão sobre que democracia queremos, logo, que Brasil queremos. Quem primeiro me chamou a atenção para este raciocínio foi meu amigo Mino Carta. Temos hoje 200 milhões de habitantes, logo seremos a quinta economia do mundo. E nossa comunicação ainda está na mão de três famílias. Eles têm jornais, sites, agências de noticias. E determinam a cobertura de todas as mídias.

E como a sociedade pode se fazer ouvir e participar da discussão que tem que ser feita?
A Confecom não deveria circunscrever-se a uma agenda mínima. A hora é de entrar na jaula do tigre. Fazer o que tem que ser feito. Para isso, é necessário reivindicar uma lei de comunicação de massa. Pode-se partir do projeto que o falecido Sergio Motta deixou de herança para o Fernando Henrique Cardoso. Fernando Henrique pôs o projeto numa gaveta do Planalto e o governo Lula também não quis tirar de lá. Outra sugestão é botar dinheiro na produção de conteúdo para fomentar a produção independente. Pode-se criar uma fundação com recursos públicos e privados que funcionaria como uma grande redação e que disponibilizaria material para quem quisesse consumir.

Mas como garantir a independência de uma iniciativa dessas?
Seria preciso se certificar de haver mecanismos estatutários que garantam independência suficiente para manter a isenção. Outra coisa também: está na hora de transformar a TV pública em estatal. Acabar com o romantismo e assumir de vez que se criou algo para competir no mercado com a Globo. Senão, a discussão vai ser sempre sobre rádio comunitária e jornal de bairro. Está na hora de botar o pé na porta.

Como assim?
Estive na Conecom da Bahia e foi muito entusiasmante, animador. Mas querer regionalizar o conteúdo das grandes redes, regulamentar rádios comunitárias, isso não resolve o problema. Enquanto a discussão for essa, os oligopólios estão dando gargalhadas. Tem que jogar o jogo. Se não, vai ser sempre assembléia atrás de assembléia.

E como a convergência de mídias pode ajudar nesse processo?
Só ajuda. A quantidade e a qualidade dos vídeos hoje na internet são animadoras. É um ótimo caminho para se democratizar. Mas quando o ministro Gilberto Gil, por exemplo, quis criar a Ancine, quase levou um tiro. Mas as novas mídias estão aí e devem permanecer como estão: livres. Sua atual regulamentação é satisfatória. Cada um que abra seu blog e quem for competente fica.

E a convergência pode mesmo se transformar em oportunidades de negócios e geração de empregos?
Claro. O departamento de jornalismo da Globo não precisa mais contratar ninguém. Esse é o caminho a se seguir para expandir o mercado. A cada portal novo de notícias, mais pessoas são contratadas.

E que outros desafios o senhor enxerga nesse debate?
O negócio mais complicado é o das TVs. Agora as companhias telefônicas estão querendo entrar e isso tem que ser muito bem pensado. Porque elas, praticamente, estão em mãos mexicanas e francesas. O que a Confecom vai dizer sobre isso? Como o PT vê a possibilidade de as telefônicas, em mãos estrangeiras, entrarem nesse mercado?

Fonte: Portal CONFECOM

 

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