Elaboração: DIEESE/CONTEE
O comportamento da economia no 1.º semestre de 2005
A grave crise política pelo qual o país está atravessando atualmente
parece não ter contaminado a economia brasileira nesse primeiro
semestre do ano. Indicadores financeiros que medem o grau de
confiança dos agentes econômicos sobre a economia como taxa de
câmbio, risco país e taxa de juros de longo prazo finalizaram o semestre
com os melhores resultados desde o inicio do atual governo. O Produto
Interno Bruto registrou crescimento nesse primeiro semestre de 3,4%
em relação ao mesmo período de 2004. Os setores que mais cresceram
foram a Indústria com 4,4%, a Agropecuária com 2,9% e por fim o setor
de Serviços com 2,4%.
O bom comportamento desses indicadores está ligado a um ambiente
externo e interno mais estáveis economicamente. Quanto ao ambiente
externo, o déficit na conta corrente da economia americana e o bom
desempenho da economia chinesa continuam sendo a explicação para a
alta liquidez da economia internacional. A principal preocupação no que
diz respeito ao ambiente internacional continua sendo a alta dos preços
do petróleo. Em relação ao mercado interno as exportações e a política
de expansão do crédito continuam impulsionando o nível de atividade
econômica do país.
O fluxo de recursos externo proveniente dos segmentos comercial e
financeiro garantiu nesse primeiro semestre uma trajetória sustentável
de valorização da taxa de cambio. A apreciação cambial parece não ter
afetado o bom desempenho da Balança Comercial Brasileira que fechou
o semestre com um saldo de U$$ 20,488 bilhões sendo 1,34 vez superior
ao primeiro semestre de 2004. As vendas externas cresceram 25,18%
em relação ao mesmo período de 2004, totalizando um volume de
recursos na ordem de U$$ 53,7 bilhões. A expansão das exportações é
creditada a três fatores principais: ao acréscimo na quantidade
exportada; a alta de preços dos produtos básicos (exceto soja) e à
recuperação de importantes mercados para os produtos brasileiros,
como os dos Estados Unidos, Argentina e Alemanha. Cabe ressaltar que
os resultados obtidos estão sob uma base de comparação já bastante
elevada dado os valores alcançados em 2004, o que tem conduzido o
país a uma situação de superação sucessiva de recordes históricos.
No entanto, os resultados positivos, escondem uma perda de dinamismo
que fica cada vez evidente. Enquanto em 2004 o excelente desempenho
foi impulsionado pela quantidade exportada de manufaturas, já nesse
primeiro semestre de 2005 a exportações foram lideradas por bens e
produtos básicos e semifaturados. Esses últimos cresceram cerca de
70% e 80% respectivamente, no período em analise. A maior participação
desses produtos na exportação está em grande medida associada ao
aumento dos preços internacionais. Para se ter uma idéia, o
crescimento da quantidade exportada desses produtos foi de 6,7%,
enquanto os preços tiveram no mesmo período um crescimento de 60%.
Ao mesmo tempo os produtos manufaturados tiveram uma variação na
quantidade exportada de 50% enquanto os preços subiram apenas 19%.
Essa situação é reflexo de um aumento na demanda proveniente da
China que acabou por pressionar o preços das commodities,
principalmente das brasileiras como café e fumo, no mercado
internacional garantindo ao Brasil um receita significativa nas
exportações.
As importações por sua vez responderam muito lentamente a
apreciação cambial. O crescimento das importações tem sido
impulsionado pela compra de matéria-prima, bens intermediários e bens
de capital, estando associado muito mais à retomada da atividade
industrial do que ao câmbio. As importações de bens de consumo por
sua vez não têm apresentado os sinais esperados de aceleração. A
manutenção desse quadro fica condicionada a confirmação da
retomada do crescimento industrial para o segundo semestre.
Se a valorização cambial não afetou o volume de exportações
brasileiras, o mesmo não se pode dizer do seu impacto sobre a inflação.
A inflação que vinha até abril se mostrando muito resistente recuou em
maio e registrou deflação em junho. Embora sua queda tenha ocorrido
de forma generalizada o impacto maior foi sobre os preços dos
chamados bens comercializáveis sendo estes diretamente
influenciados pelo câmbio. Mesmo assim, a taxa de inflação acumulada
nesse seis primeiros meses, utilizando o INPC/IBGE como referência,
fechou em 3,28% ficando 0,13% acima da taxa acumulada no mesmo
período em 2004. A queda na taxa de inflação pode ser considera como
um indicativo para a futura redução da taxa de juros básica da economia
brasileira a SELIC que se mantém em 19,75% ao mês.
Alias, os níveis de atividade já vem dando os principais sinais da
retomada do crescimento. Depois de alguns meses de estagnação a
produção industrial em junho de 2005 registrou um crescimento de 1,6%
frente ao mês anterior. O crescimento da produção nesse primeiro
semestre ficou em 5% e nos últimos doze meses em 6,7%. Os picos de
crescimento ocorreram em maio e junho, meses em que a inflação já
está mais baixa. Entre os segmentos que contribuíram para esse
resultado positivo destacam-se: veículos automotores (8%) e material
eletrônico e equipamentos de comunicação (7,1%). Os segmentos como
refino de petróleo e produção de álcool (-2,7%) e outros produtos
químicos (-2%) apresentaram impactos negativos.
Entre as categorias destacam-se os bens de consumo duráveis que
cresceram entre janeiro e junho de 2005 cerca de 16,7% ficando bem
acima da média da indústria como um todo. O setor de bens de consumo
duráveis por ter forte encadeamento com os outros ramos
industriais,.traz impactos positivos principalmente para o setor de bens
intermediários que registrou um crescimento de 2,4% no período em
análise. A produção de bens de consumo não duráveis ou semiduráveis
apresentou um leve declínio em junho.
O descompasso entre os ritmos de crescimento entre as categorias
sugere que a expansão do consumo estaria mais apoiada no aumento
do crédito ao consumidor do que na expansão da massa salarial. O
estoque de crédito no Brasil cresce a taxas elevadas, principalmente o
crédito a pessoa física. Nos últimos 12 meses, o crédito a pessoa física
realizada por meio de empréstimos consignados cresceram mais de
100%. Contudo esse crescimento pode indicar um possível
endividamento das famílias que empolgadas com a contratação de
empréstimos a taxas mais baixas estariam atingindo o limite de
comprometimento de sua renda com obrigações financeiras. A
conseqüência se manifestaria na elevação da inadimplência e na
retração do consumo nos próximos meses a medida em que a renda
fosse canalizada para o pagamento das dividas contraídas. Os efeitos
da expansão do crédito tiveram reflexo no comércio, que cresceu nesse
primeiro semestre desse ano 4,64% sendo liderado pelo segmento de
moveis e eletrodomésticos (19%). As vendas reais dos supermercados
brasileiros aumentaram 3,35% no mesmo período.
Mesmo com um quadro político bastante tumultuado, os resultados do
primeiro semestre desse ano são significativo e projetam para o
segundo semestre em quadro de crescimento econômico, porém a
ritmo bem mais lento do que ano passado.
Projeções Boletim Focus/Bacen para 2005:
Indicadores |
Projeções – Boletim Focus |
Taxa de Inflação IPCA |
5,67% |
Taxa do crescimento do PIB |
3% |
Saldo Comercial (U$$ bi) |
36,45 |
Saldo em Conta-Corrente (U$$ bi) |
10,0 |
Taxa de Câmbio - Final do ano. (R$/U$$) |
2,55 |
Taxa Selic (final do ano) |
18,00 |
(Porto Alegre, setembro 2005)